sexta-feira, 26 de junho de 2009

O MULATO IMORTAL DE OEIRAS

J. Miguel de Matos

É de Cristino Castelo Branco este ligeiro perfil de Nogueira Tapety, o mulato imortal de Oeiras : “Vejo-o ainda, alto e magro, de fraque cinzento, a recitar enfaticamente, entre os colegas, na república Casa dos Maribondos, no bairro de Tijipió, no Recife, trechos d’A Morte de D. João, d’A Velhice do Padre Eterno, d’Os Maias, d’A Correspondência de Fradique Mendes... Na ilha da Madeira, onde o levaram esperanças de cura, e onde obteve algumas melhoras, exclama numa longa poesia: “Madeira! Foi assim que eu te sonhei: / Uma linda montanha, / Toucada dejardins, magnífica, risonha, / E és como imaginei... / Nereida do Atlântico! / Tu seduziste o mar / E o trazes a teus pés rendido a se rojar, / Terno, amoroso, humílimo, romântico, / Sonatas e baladas a cantar... / Madeira! / És o consolo dosaflitos, / Dos tristes a alegria, amparo dos desgraçados, / E refúgio seguro dos proscritos / que foram pela ciência humana abandonados...”.

Quem vai à velha cidade de Oeiras, para um encontro com o seu passado de tantas glórias, e com o seu presente de tantas esperanças, ouve a toda hora, o nome do poeta Nogueira Tapety, como uma prece obrigatória de beato ou como o dever de rezar de um sacerdote.E eu, para poder biografá-lo, tive de ir à antiga capital do Estado, por onde caminharam tantas figuras lendár ias da vida piauiense ou adventistas colonizadores como o Conselheiro Saraiva de outros, e onde hoje, pelas noites profundas vagam fantasmas que amedrontam os homens, metem medo nas crianças e agitam aimaginação fértil dos poetas: “O largo da Matriz. O beco escuro / do “Sobrado” onde, à noite, às horas mortas, / eu passava a tremer, muito seguro / de que via almas brancas pelas portas...”

Bendito Francisco Nogueira Tapety, estreou nas letras com a conferência intitulada “A Luz”, a 11 de fevereiro de 1911, no Teatro 4 de Setembro, de Teresina, revelando talento e cultura contrastante com a sua idade tenra, no primeiro grito de sua glória que viria muito cedo, na qual estudou o sol perante a ciência, a religião e a literatura. Foi professor do Liceu Piauiense. Formou-se em Direito no Recife. De seus condiscípulos, que teriam lugar de relevo no país, três me ocorrem neste registro:Cristino Castelo Branco, Simplício de Sousa Mendes e Lucídio Freitas, os dois últimos já falecidos. Foi muito curta a vida de Nogueira Tapety, tragado pela tuberculose que ceifou muitos talentos no Piauí, como Celso Pinheiro, Adail Coelho Maia, José Newton de Freitas e Lucídio Freitas. Poeta romântico por excelência, cujas características são encontradas, todas elas, na construção de seus versos (visão do mundo pessoal e íntimo, estado de alma pessoal diante da realidade exter ior, primado da imaginação, na intuição, da emoção e da paixão). No soneto “Pesadelo Atroz”,Nogueira Tapety oferece a medida exata do romantismo da sua poesia, inspirada no desregramento de sua vida boêmia e na tragédia amorosa que o levava em busca de paz à comunhão do bordel e do copo de bebida, onde só poderia encontrar desespero e desilusão:
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.. Mal sabe ela que todo esse desregramento
É o véu sob o qual minha tortura oculto,
Pois quem vive como eu de tormento em tormento,
Necessita viver de tumulto em tumulto...
O que eu busco ao bordel, é a paz do esquecimento,
Mas na noite do vício em as mágoas sepulto,
Como um raio a luzir, de momento a momento,
Fere-me o pensamento o clarão do seu vulto.
Foi o vício o recurso extremo, o último apelo,
Que lancei, torturado, aos rumores do mundo,
Para me libertar deste amargo desvelo.
E quanto mais me excedo e em rumores me afundo,
Mais se arraiga em minh’alma este atroz pesadelo,
Este afeto infeliz cada vez mais profundo.”

Iniciando sua vida literár ia com uma simples conferência, primeiro plantio de umas sementes que iriam dar bons frutos, Nogueira Tapety escreveu as seguintes obras em poesia, que ficaram para atestar seu grande talento: “Ode a Madeira”. “No exílio”, “Manhãs de Inverno”, “Sonho Panteísta” e “Às Armas”.

Colaborou nos jornais do Piauí, “Diár io de Pernambuco” e “Diário de Belém” – informa João Pinheiro no escorço “Literatura Piauiense” – e realizou, no Teatro 4 de Setembro (como já está dito na abertura deste trabalho), uma conferência literária, “A Luz”, deixando inéditos dois volumes de poesia a que deu título geral de“Versos” (em duas partes) e “Vingança de Mulher”, drama em quatro atos – adaptação ao palco da novela “Mariage de Vengeance”, de Le Sage.

Aceito membro da Academia Piauiense de Letras, não chegou a se empossar, por ter falecido, ficando de posse de sua Cadeira, a de número 15, o desembargador Cristino Castelo Branco, um dos maiores nomes da literatura piauiense, como poeta, como pesquisador e como conferencista.

Nogueira Tapety não deixou nenhum livro publicado – de um lado, pelas atividades publicitárias do Piauí, de outro pelo desleixo do homem de pensamento, que costuma se esquecer, na sua vida de sonhos, do lado real da vida. O poeta Veras de Holanda padeceu, também, dessa incúria e os seus versos, se não fossem cuidados pelas mãos dos outros, teriam caídos no mais cruel anonimato. O poeta Júlio Antônio Martins Vieira (biografado nesta obra), que anda por aí pisando o chão da cidade e beijando a boca úmida das taças de cristal, é outro que vai deixar para a posterioridade, apenas, o prurido de seu talento através da crônica verbal.

Em Oeiras, na companhia do poeta Balduíno Barbosa de Deus (“Desce a noite tristemente, / envolvendo, de repente, / a terra na escuridão... / E as estrelas,buliçosas, / vão brotando, como rosas, / nos canteiros da amplidão...”), visitei a casa, no bairro meditativo do Canela, a tarde quase morta e o Riacho do Mocha, muito perto, musicando nos seixos lodosos, uma canção sacra, casa onde morou e morreu Nogueira Tapety. Num canto de um quarto modesto onde fui levado pela mão obsequiosa de Balduíno, expirou o poeta, cuja maior lembrança ali é um retrato seu, desbotado e empoeirado. Nogueira Tapety, tinha muita sede de luz, como Goethe (“Luz! Mais luz”), talvez por viver, no cumprimento cruel de seu destino, sempre engolfado nas trevas:

“Todo o meu corpo é luz esplendorosa,
Sou hino de luz religiosa,
Gravitando na órbita dos Céus...
Milhões de auroras riem no meu canto,
Ondas de estrelas brilham no meu pranto,
Pélagos de luas há nos olhos meus!...
Esta carne, este sangue, esta miséria.
E este ideal imortal que me conduz,
Já foram brasas na amplidão etérea,
Por isso exultam, devorando a luz...”
J. Miguel de Matos

Antologia Poética Piauiense, 1974 – ed. Artenova – p. 72/74

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