J Ribamar de MatosConfessa Humberto de Campos, nas suas memórias inacabadas, ter sido um anônimo versejador de província o poeta de sua predileção, na adolescência. O fenômeno não chega a ser original; repete-se com cada um de nós, quando nos iniciamos na literatura. Foi assim comigo e terá sido assim com muitos outros jovens. Nos meus primeiros anos declamava com maior enlevo o “Senhora da Bondade”, de Nogueira Tapety, do que qualquer obra prima da poesia universal. Com a maturidade literária, poetas mais afamados vieram assumindo a liderança em minha admiração. Mas nunca feneceu, em mim, o respeito ao talento criador, às belas estrofes daquele vate que, não fora morte prematura, teria atingido o alto nível dos grandes parnasianos do Brasil, desgarrado para a poesia panteísta, (na observação de Édson Cunha, - vitorioso crítico de “Nossos Imortais” sendo ele também imortal, ocupante da cadeira de nº 5-). E tanto é assim, que alimento desejo de, um dia, escrever algo mais substancioso a respeito de quem a morte levou tão cedo, não permitindo que deixasse obra definitiva.
Quando estudante em Teresina, iniciei exaustivo trabalho de pesquisa sobreesse aedo esquecido. Cheguei mesmo a reunir valiosos subsídios e boa parte de sua produção poética esparsa – inclusive a expressiva ode a Zaratustra, precedida da corajosa epígrafe “Palavras que Nietzsche não escreveu”. Mãos inescrupulosas,porém, levaram-me, por empréstimo, o caderninho de anotações que nunca maisretornou as suas origens, inutilizando-se, dessa maneira, um esforço de vários meses no manuseio de papéis de outrora. A um só tempo as atividades profissionais afastaram-me das fontes de referência, impossibilitando-me de retomar o trabalho.
Benedito de Francisco Nogueira Tapety nasceu em Oeiras a 30 de dezembro de 1890. Teve o batismo no dia 8 de fevereiro de 1891. Seu registro civil, sob nº 369, se fez em 13 de junho de 1917. A 18 de janeiro do ano seguinte, faleceu naquela mesma cidade. Solteiro, vinte sete anos e dezenove dias de existência.
Seu túmulo é obra, do artista-curioso e inspirado, de saudosa memória, Burane Freitas. Consta de lápide básica, inclinada, no alto da qual se ergue uma cruz de pedra inteiriça, com esplendor no encontro dos braços. Nos braços está escrito “1890/1918”, e na parte vertical, ao longo: “B. Nogueira Tapety”. Na lápide: “Amou o Belo; o Bem e a Verdade”. Há também vários desenhos significativos – sol, coroa e flores – tanto na cruz como na lápide.
Estreou nas letras piauienses com a conferência “A Luz”, em 11 de fevereiro de 1911, no teatro 4 de Setembro, na qual estudou o sol perante a Ciência, a Religião e a Literatura. Formou-se em Ciência Jurídicas e Sociais pela tradicional Faculdade de Direito do Recife, no dito ano de 1911. Foi professor no velho Liceu Piauiense, Delegado Geral e Promotor Público em Teresina, e Membro da Academia Piauiense de Letras (Cadeira nº 15, de que é Patrono o laureado tribuno parlamentar Antônio Borges Leal Castelo Branco). Faleceu, porém, antes de assumir a cadeira. Desde então ocupa-a o luminoso poeta e jurista Cristino Castelo Branco. Foi – Cristino – seu condiscípulo na Faculdade e ao mesmo tempo camarada de república estudantil, disse de NogueiraTapety. “Dos companheiros que tive, um dos mais inteligentes era, sem dúvida, o mulato de Oeiras”.
Deixou, o nosso vate, em manuscrito, três pequenos volumes, sendo dois
contendo versos (e com essa denominação) e o último encerrando a conferência atrás aludida.
contendo versos (e com essa denominação) e o último encerrando a conferência atrás aludida.
Essas excelentes produções, a família Tapety, durante anos, esqueceu o
nome da pessoa a quem as havia emprestado. Teódulo Freitas Tapety, sobrinho do autor, conseguiu depois, casualmente, recuperá-las. Uma vez mais, porém, se extraviaram...
nome da pessoa a quem as havia emprestado. Teódulo Freitas Tapety, sobrinho do autor, conseguiu depois, casualmente, recuperá-las. Uma vez mais, porém, se extraviaram...
Não obstante, em Oeiras, ainda há quem conserve de cor, algumas poesias e sonetos do querido e ardoroso beletrista patrício. Assim, posso agora apresentar os dois seguintes, sendo, o segundo, uma de suas derradeiras produções.
SENHORA DA BONDADE
Não te quero por tua formosura
De rainha da graça entre as mulheres,
Quero-te porque és boa, porque és pura
E inda mais porque sei que tu me queres.
A beleza exterior nem sempre dura,
E a d’alma, estejas tu onde estiveres,
Ungirá de meiguice e de doçura
Tudo em que a bênção deste olhar puseres.
Eu sou artista: encanta-me a beleza,
Em ti, porém, abstraio-a inteiramente,
E penso amar-te assim com mais nobreza;
Pois, se te esqueço a forma e a mocidade,
É para amar em ti unicamente
A encarnação suprema da bondade.
Não te quero por tua formosura
De rainha da graça entre as mulheres,
Quero-te porque és boa, porque és pura
E inda mais porque sei que tu me queres.
A beleza exterior nem sempre dura,
E a d’alma, estejas tu onde estiveres,
Ungirá de meiguice e de doçura
Tudo em que a bênção deste olhar puseres.
Eu sou artista: encanta-me a beleza,
Em ti, porém, abstraio-a inteiramente,
E penso amar-te assim com mais nobreza;
Pois, se te esqueço a forma e a mocidade,
É para amar em ti unicamente
A encarnação suprema da bondade.
HOLOCAUSTO
Eu devia prever que toda essa loucura
E esta dedicação com que te tenho amado,
Não podiam mover-te a impassível ternura
Pois nunca existiu bem com o bem recompensado.
Entretanto, bendigo a terrível tortura
E os suplícios cruciais por que tenho passado,
Pois sofrendo por ti, eu sinto que a amargura
Tem o doce sabor de um fruto sazonado.
Olha bem para mim: vê que vinte e seis anos
Não podiam me ter por tal forma abatido
Nem roubar minha força e vigor espartanos,
Se estou precocemente exausto e envelhecido,
É do efeito fatal dos tristes desenganos
E do atroz desespero em que tenho vivido.
Eu devia prever que toda essa loucura
E esta dedicação com que te tenho amado,
Não podiam mover-te a impassível ternura
Pois nunca existiu bem com o bem recompensado.
Entretanto, bendigo a terrível tortura
E os suplícios cruciais por que tenho passado,
Pois sofrendo por ti, eu sinto que a amargura
Tem o doce sabor de um fruto sazonado.
Olha bem para mim: vê que vinte e seis anos
Não podiam me ter por tal forma abatido
Nem roubar minha força e vigor espartanos,
Se estou precocemente exausto e envelhecido,
É do efeito fatal dos tristes desenganos
E do atroz desespero em que tenho vivido.
Quem, ao escrever versos como esses foi compreendido e festejado por seus contemporâneos, merece, sem dúvida, a admiração e reconhecimento dos pósteros. Merece a ressurreição literária. E é na verdade, possuído dessa confiança que os estou relembrando. Faço com eles – assim emoldurados por esta singela crônica – um brinde de luz aos que ora se devotam à tarefa cívica do revigoramento cultural de minha Oeiras. Nesse empenho, procuraremos preencher a lacuna ocasionada pela demolição criminosa de valiosos tesouros materiais e morais, que vem sofrendo asanta terrinha – “terra máter” do Piauí -, sempre disposta ao aprimoramento cultural – democrático de todos os seus filhos, embora freqüentemente preterida na distribuição das honrarias. Os tesouros da inteligência e da alma, todavia, são imperecíveis, conquanto permaneçam, às vezes, em estado latente, por muito tempo.
Deve ter pensado nessa base o erudito intelectual conterrâneo e acadêmico (cadeira nº 12) Bugyja Britto, quando – segundo acabo de ser informado – perguntou em carta a Costa Machado, referindo-se à recente criação do Instituto Histórico de Oeiras: “Por que não se cria uma Academia de Letras?”.
J. Ribamar Matos .Fortaleza, 03/03/1972
J. Ribamar Matos .Fortaleza, 03/03/1972
Este artigo foi publicado no jornal oeirense O COMETA (abril/72). O autor,
também festejado poeta, nascido em Oeiras, faleceu, como Nogueira Tapety, muito moço, sem ver publicada sua obra, vinda a lume, posteriormente, sob o título “Poeira de Estrada”, edição do Instituto Histórico de Oeiras, patrocinada pelo Banco do Nordeste, de onde o vate era funcionário.
também festejado poeta, nascido em Oeiras, faleceu, como Nogueira Tapety, muito moço, sem ver publicada sua obra, vinda a lume, posteriormente, sob o título “Poeira de Estrada”, edição do Instituto Histórico de Oeiras, patrocinada pelo Banco do Nordeste, de onde o vate era funcionário.
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