El Cid, el Campeador:estatuas equestresMeu caro Nogueira Tapety:
Acredito ter sido dolorosíssimo o sacrifício que o acaso te proporcionou, dando-te por companheiro obrigatório o crédito fatigante e impertinente de um bom católico apostólico romano, catecista por índole, vicentino por catarse. Mas acredito ser mais doloroso, mais cruel e mais pungente ainda, ter que viver, tu, o sonhador, o artista faminto de glória, o espírito nobre, de muita inteligência, acorrentado à ignorância calma, concentrada e casmurra do povo que te cerca e que não te compreende e que zomba imbecilmente do teu talento...
As esperanças que acalentavas, os sonhos que pontilhavam de luminosidades estranhas à noite cor-de-rosa da tua existência, se foram para bem longe, para o além,desaparecendo afugentados pelo solinclemente e abrasador da vida real.
Bem, muito bem dizia o Sobreira, o amigo original que tão bemcompreende a vida e que ainda melhor a vive, quando se penitenciava a ouvir o áureo cortejo dos teus planos a Patrocínio, que não passarias jamais de ser o que realmente hoje me afirmas que és: Promotor Público e Chefe Político da Comarca de Oeiras.
A vida, meu amigo, é o círculo dos contrastes. É sempre a mesma desilusão, o mesmo mal, a mesma brutalidade esmagadora de sempre.
O que és hoje? És o homem completamente diferente daquilo que sonhavas ser...Nós vivemos de queda em queda, de desilusão em desilusão. O homem é filho da dor. O gozo é efêmero como a glória, “a glória é efêmera como o fumo”. Shopenhawer disse que “a vida é sofrimento e a vida humana é a mais dolorosa forma de vida”. Guerra Junqueiro ampliou com outras palavras a tese Shopenhaweana: - “A vida é o mal. A expressão última da vida terrestre é a vida humana e a dos homens numa batalha inexorável de apetites, num tumulto desordenado de egoísmo, que se entrechocam, rasgam, dilaceram.” No mundo, de real, só existe a dor, pensava Voltaire, acrescentando “que as moscas nasceram para serem comidas pelas aranhas e os homens para serem devorados pelas afeições.”Corneille, no seu maravilhoso poema Le Cid, escreveu:
“Jamais nous ne goûtons de parfaite alégresse:
Nos plus heureux succès sont mêlés de tristesse.”
A vida é isto, meu amigo. É a opressão, é a ignorância. É a podridão de Locusta ou o misticismo celeste de Santa Teresa ou a doutrina de Vanderbilt custando aldeolas de miseráveis. O seu espírito torturado sempre pela sede luminosa da arte, do Belo, do Grande, da Glória, pulsa agora acolcheteado no âmbito estreito de um estabelecimento comercial e nos corredores pardacentos da casa do Conselho...Fatalidade!... Deve ser muito interessante a tua pose aristocrática, o teu método de ianque presidindo uma sessão do Conselho Municipal.
Acredito ter sido dolorosíssimo o sacrifício que o acaso te proporcionou, dando-te por companheiro obrigatório o crédito fatigante e impertinente de um bom católico apostólico romano, catecista por índole, vicentino por catarse. Mas acredito ser mais doloroso, mais cruel e mais pungente ainda, ter que viver, tu, o sonhador, o artista faminto de glória, o espírito nobre, de muita inteligência, acorrentado à ignorância calma, concentrada e casmurra do povo que te cerca e que não te compreende e que zomba imbecilmente do teu talento...
As esperanças que acalentavas, os sonhos que pontilhavam de luminosidades estranhas à noite cor-de-rosa da tua existência, se foram para bem longe, para o além,desaparecendo afugentados pelo solinclemente e abrasador da vida real.
Bem, muito bem dizia o Sobreira, o amigo original que tão bemcompreende a vida e que ainda melhor a vive, quando se penitenciava a ouvir o áureo cortejo dos teus planos a Patrocínio, que não passarias jamais de ser o que realmente hoje me afirmas que és: Promotor Público e Chefe Político da Comarca de Oeiras.
A vida, meu amigo, é o círculo dos contrastes. É sempre a mesma desilusão, o mesmo mal, a mesma brutalidade esmagadora de sempre.
O que és hoje? És o homem completamente diferente daquilo que sonhavas ser...Nós vivemos de queda em queda, de desilusão em desilusão. O homem é filho da dor. O gozo é efêmero como a glória, “a glória é efêmera como o fumo”. Shopenhawer disse que “a vida é sofrimento e a vida humana é a mais dolorosa forma de vida”. Guerra Junqueiro ampliou com outras palavras a tese Shopenhaweana: - “A vida é o mal. A expressão última da vida terrestre é a vida humana e a dos homens numa batalha inexorável de apetites, num tumulto desordenado de egoísmo, que se entrechocam, rasgam, dilaceram.” No mundo, de real, só existe a dor, pensava Voltaire, acrescentando “que as moscas nasceram para serem comidas pelas aranhas e os homens para serem devorados pelas afeições.”Corneille, no seu maravilhoso poema Le Cid, escreveu:
“Jamais nous ne goûtons de parfaite alégresse:
Nos plus heureux succès sont mêlés de tristesse.”
A vida é isto, meu amigo. É a opressão, é a ignorância. É a podridão de Locusta ou o misticismo celeste de Santa Teresa ou a doutrina de Vanderbilt custando aldeolas de miseráveis. O seu espírito torturado sempre pela sede luminosa da arte, do Belo, do Grande, da Glória, pulsa agora acolcheteado no âmbito estreito de um estabelecimento comercial e nos corredores pardacentos da casa do Conselho...Fatalidade!... Deve ser muito interessante a tua pose aristocrática, o teu método de ianque presidindo uma sessão do Conselho Municipal.
“Considera isto"– escreves com sinceridade– "pasma e vê neste espelho fiel o fim que aguarda a todo indivíduo que se bestializa em Direito, como dizia o Fialho. Espera-te a sorte e, como eu, prevejo que falharás na vida bacharelática; trata, pois, de estudar escrituração mercantil, pois como bacharel nada farás, uma vez que as condições de êxito são três: pai alcaide, orelhas grandes e pose, sobretudo pose, meu Lucídio. Livros não os abrirei mais. Para ser comerciante, promotor e presidente do Conselho Municipal de todas as Oeiras do mundo, já tenho ilustração pra burro. Agora é tratar de sufocar estas pedantescas necessidades do espírito; fazer politiquice na aldeia, comprar cera, borracha, couros, vender mercadorias com lucro de 50%, enganar o próximo, arranjar mulher, criar banhas, ganhar dinheiro e teremos feito a vida.”
É uma grande verdade o que escreveste. O futuro que nos aguarda, a todos nós, é o mesmo.
Ao reler a tua carta dogmática, sincera, brilhante, entrecortada de laivos de saudade e de tristeza, vi passar pelos meus olhos, em revoada, num rufar de asas ligeiras, todo o nosso passado acadêmico: bando frugal de sonhos multicores, aventuras difíceis, um olhar, uma lágrima, uma flor,um beijo, um verso escrito às carreiras, uma semana ou mais de quebradeira, um rendez-vous, tudo isso, meu amigo, que constitui a vida de um estudante nortista...
E a nossa vida republicana?Lembras-te, quando à rua do Aragão, eu, tu e Raul Machado, o amigo sincero, o companheiro dedicado, o poeta delicioso, o artista fino, consagrado em todo o país como espírito mais bem organizado da nova geração de intelectuais brasileiros, passávamos horas e horas, após o jantar, procurando esquecer as gargalhadas altitonantes do Pedro Sá e do Demócrito, o piauilismo exagerado do Raimundo Cunha, o excelente companheiro que estimo, a matemática de Holmes, a carranca do Felipe, e as graças do Custódio compondo versos àquela menina cor de jambo que nos espiava de longe, cautelosamente, da sua casinha muito meiga e muito branca, ao lado daquele posto policial que tanto nos amedrontava? E a rua Augusta com o Corintho, Edison Sobreira, Públio, Cristino e Rangel? Lembras-te do dia em que o nosso cozinheiro faltou ao serviço, e, como as despesas do dia estivessem feitas, eu, tu, e o Edison, por princípio econômico, fomos bater à cozinha, cada qual trabalhando melhor a arte culinária? Lembras-te, bem sei.
É uma grande verdade o que escreveste. O futuro que nos aguarda, a todos nós, é o mesmo.
Ao reler a tua carta dogmática, sincera, brilhante, entrecortada de laivos de saudade e de tristeza, vi passar pelos meus olhos, em revoada, num rufar de asas ligeiras, todo o nosso passado acadêmico: bando frugal de sonhos multicores, aventuras difíceis, um olhar, uma lágrima, uma flor,um beijo, um verso escrito às carreiras, uma semana ou mais de quebradeira, um rendez-vous, tudo isso, meu amigo, que constitui a vida de um estudante nortista...
E a nossa vida republicana?Lembras-te, quando à rua do Aragão, eu, tu e Raul Machado, o amigo sincero, o companheiro dedicado, o poeta delicioso, o artista fino, consagrado em todo o país como espírito mais bem organizado da nova geração de intelectuais brasileiros, passávamos horas e horas, após o jantar, procurando esquecer as gargalhadas altitonantes do Pedro Sá e do Demócrito, o piauilismo exagerado do Raimundo Cunha, o excelente companheiro que estimo, a matemática de Holmes, a carranca do Felipe, e as graças do Custódio compondo versos àquela menina cor de jambo que nos espiava de longe, cautelosamente, da sua casinha muito meiga e muito branca, ao lado daquele posto policial que tanto nos amedrontava? E a rua Augusta com o Corintho, Edison Sobreira, Públio, Cristino e Rangel? Lembras-te do dia em que o nosso cozinheiro faltou ao serviço, e, como as despesas do dia estivessem feitas, eu, tu, e o Edison, por princípio econômico, fomos bater à cozinha, cada qual trabalhando melhor a arte culinária? Lembras-te, bem sei.
Hoje, meu amigo, vives uma vida burguesa, fútil e ao mesmo tempo espalhafatosa de moço aldeão. Podes dizer, como o imortal Sousa Bandeira, escrevendo ao seu companheiro de Academia, o nosso patrício João Alfredo de Freitas: “Eu tendo perdido as ilusões pelo atrito da falada vida real de que tanto chanceava quando prediziam os conselheiros oficiosos”, eu, tornando bem em burguês, homem prático, olho possuído de uma saudade infinita, para um passado que lá se foi.
Adeus!...Por hoje basta.
Domingo voltarei a abraçar-te; não fazendo reminiscências, que não as sei fazer, mas falando da nossa saudade que é toda a nossa vida...
Lucídio Freitas
Diário do Piauí - nº 214, Teresina , 29 de setembro de 1912.
Lucídio Freitas
Diário do Piauí - nº 214, Teresina , 29 de setembro de 1912.
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