sábado, 27 de junho de 2009

O BURGUÊS FIDALGO

El Cid, el Campeador:estatuas equestres

Meu caro Nogueira Tapety:

Acredito ter sido dolorosíssimo o sacrifício que o acaso te proporcionou, dando-te por companheiro obrigatório o crédito fatigante e impertinente de um bom católico apostólico romano, catecista por índole, vicentino por catarse. Mas acredito ser mais doloroso, mais cruel e mais pungente ainda, ter que viver, tu, o sonhador, o artista faminto de glória, o espírito nobre, de muita inteligência, acorrentado à ignorância calma, concentrada e casmurra do povo que te cerca e que não te compreende e que zomba imbecilmente do teu talento...

As esperanças que acalentavas, os sonhos que pontilhavam de luminosidades estranhas à noite cor-de-rosa da tua existência, se foram para bem longe, para o além,desaparecendo afugentados pelo solinclemente e abrasador da vida real.

Bem, muito bem dizia o Sobreira, o amigo original que tão bemcompreende a vida e que ainda melhor a vive, quando se penitenciava a ouvir o áureo cortejo dos teus planos a Patrocínio, que não passarias jamais de ser o que realmente hoje me afirmas que és: Promotor Público e Chefe Político da Comarca de Oeiras.

A vida, meu amigo, é o círculo dos contrastes. É sempre a mesma desilusão, o mesmo mal, a mesma brutalidade esmagadora de sempre.
O que és hoje? És o homem completamente diferente daquilo que sonhavas ser...Nós vivemos de queda em queda, de desilusão em desilusão. O homem é filho da dor. O gozo é efêmero como a glória, “a glória é efêmera como o fumo”. Shopenhawer disse que “a vida é sofrimento e a vida humana é a mais dolorosa forma de vida”. Guerra Junqueiro ampliou com outras palavras a tese Shopenhaweana: - “A vida é o mal. A expressão última da vida terrestre é a vida humana e a dos homens numa batalha inexorável de apetites, num tumulto desordenado de egoísmo, que se entrechocam, rasgam, dilaceram.” No mundo, de real, só existe a dor, pensava Voltaire, acrescentando “que as moscas nasceram para serem comidas pelas aranhas e os homens para serem devorados pelas afeições.”Corneille, no seu maravilhoso poema Le Cid, escreveu:

“Jamais nous ne goûtons de parfaite alégresse:
Nos plus heureux succès sont mêlés de tristesse.”

A vida é isto, meu amigo. É a opressão, é a ignorância. É a podridão de Locusta ou o misticismo celeste de Santa Teresa ou a doutrina de Vanderbilt custando aldeolas de miseráveis. O seu espírito torturado sempre pela sede luminosa da arte, do Belo, do Grande, da Glória, pulsa agora acolcheteado no âmbito estreito de um estabelecimento comercial e nos corredores pardacentos da casa do Conselho...Fatalidade!... Deve ser muito interessante a tua pose aristocrática, o teu método de ianque presidindo uma sessão do Conselho Municipal.

“Considera isto"– escreves com sinceridade– "pasma e vê neste espelho fiel o fim que aguarda a todo indivíduo que se bestializa em Direito, como dizia o Fialho. Espera-te a sorte e, como eu, prevejo que falharás na vida bacharelática; trata, pois, de estudar escrituração mercantil, pois como bacharel nada farás, uma vez que as condições de êxito são três: pai alcaide, orelhas grandes e pose, sobretudo pose, meu Lucídio. Livros não os abrirei mais. Para ser comerciante, promotor e presidente do Conselho Municipal de todas as Oeiras do mundo, já tenho ilustração pra burro. Agora é tratar de sufocar estas pedantescas necessidades do espírito; fazer politiquice na aldeia, comprar cera, borracha, couros, vender mercadorias com lucro de 50%, enganar o próximo, arranjar mulher, criar banhas, ganhar dinheiro e teremos feito a vida.”

É uma grande verdade o que escreveste. O futuro que nos aguarda, a todos nós, é o mesmo.

Ao reler a tua carta dogmática, sincera, brilhante, entrecortada de laivos de saudade e de tristeza, vi passar pelos meus olhos, em revoada, num rufar de asas ligeiras, todo o nosso passado acadêmico: bando frugal de sonhos multicores, aventuras difíceis, um olhar, uma lágrima, uma flor,um beijo, um verso escrito às carreiras, uma semana ou mais de quebradeira, um rendez-vous, tudo isso, meu amigo, que constitui a vida de um estudante nortista...

E a nossa vida republicana?Lembras-te, quando à rua do Aragão, eu, tu e Raul Machado, o amigo sincero, o companheiro dedicado, o poeta delicioso, o artista fino, consagrado em todo o país como espírito mais bem organizado da nova geração de intelectuais brasileiros, passávamos horas e horas, após o jantar, procurando esquecer as gargalhadas altitonantes do Pedro Sá e do Demócrito, o piauilismo exagerado do Raimundo Cunha, o excelente companheiro que estimo, a matemática de Holmes, a carranca do Felipe, e as graças do Custódio compondo versos àquela menina cor de jambo que nos espiava de longe, cautelosamente, da sua casinha muito meiga e muito branca, ao lado daquele posto policial que tanto nos amedrontava? E a rua Augusta com o Corintho, Edison Sobreira, Públio, Cristino e Rangel? Lembras-te do dia em que o nosso cozinheiro faltou ao serviço, e, como as despesas do dia estivessem feitas, eu, tu, e o Edison, por princípio econômico, fomos bater à cozinha, cada qual trabalhando melhor a arte culinária? Lembras-te, bem sei.

Hoje, meu amigo, vives uma vida burguesa, fútil e ao mesmo tempo espalhafatosa de moço aldeão. Podes dizer, como o imortal Sousa Bandeira, escrevendo ao seu companheiro de Academia, o nosso patrício João Alfredo de Freitas: “Eu tendo perdido as ilusões pelo atrito da falada vida real de que tanto chanceava quando prediziam os conselheiros oficiosos”, eu, tornando bem em burguês, homem prático, olho possuído de uma saudade infinita, para um passado que lá se foi.


Adeus!...Por hoje basta.

Domingo voltarei a abraçar-te; não fazendo reminiscências, que não as sei fazer, mas falando da nossa saudade que é toda a nossa vida...
Lucídio Freitas
Diário do Piauí - nº 214, Teresina , 29 de setembro de 1912.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O MULATO IMORTAL DE OEIRAS

J. Miguel de Matos

É de Cristino Castelo Branco este ligeiro perfil de Nogueira Tapety, o mulato imortal de Oeiras : “Vejo-o ainda, alto e magro, de fraque cinzento, a recitar enfaticamente, entre os colegas, na república Casa dos Maribondos, no bairro de Tijipió, no Recife, trechos d’A Morte de D. João, d’A Velhice do Padre Eterno, d’Os Maias, d’A Correspondência de Fradique Mendes... Na ilha da Madeira, onde o levaram esperanças de cura, e onde obteve algumas melhoras, exclama numa longa poesia: “Madeira! Foi assim que eu te sonhei: / Uma linda montanha, / Toucada dejardins, magnífica, risonha, / E és como imaginei... / Nereida do Atlântico! / Tu seduziste o mar / E o trazes a teus pés rendido a se rojar, / Terno, amoroso, humílimo, romântico, / Sonatas e baladas a cantar... / Madeira! / És o consolo dosaflitos, / Dos tristes a alegria, amparo dos desgraçados, / E refúgio seguro dos proscritos / que foram pela ciência humana abandonados...”.

Quem vai à velha cidade de Oeiras, para um encontro com o seu passado de tantas glórias, e com o seu presente de tantas esperanças, ouve a toda hora, o nome do poeta Nogueira Tapety, como uma prece obrigatória de beato ou como o dever de rezar de um sacerdote.E eu, para poder biografá-lo, tive de ir à antiga capital do Estado, por onde caminharam tantas figuras lendár ias da vida piauiense ou adventistas colonizadores como o Conselheiro Saraiva de outros, e onde hoje, pelas noites profundas vagam fantasmas que amedrontam os homens, metem medo nas crianças e agitam aimaginação fértil dos poetas: “O largo da Matriz. O beco escuro / do “Sobrado” onde, à noite, às horas mortas, / eu passava a tremer, muito seguro / de que via almas brancas pelas portas...”

Bendito Francisco Nogueira Tapety, estreou nas letras com a conferência intitulada “A Luz”, a 11 de fevereiro de 1911, no Teatro 4 de Setembro, de Teresina, revelando talento e cultura contrastante com a sua idade tenra, no primeiro grito de sua glória que viria muito cedo, na qual estudou o sol perante a ciência, a religião e a literatura. Foi professor do Liceu Piauiense. Formou-se em Direito no Recife. De seus condiscípulos, que teriam lugar de relevo no país, três me ocorrem neste registro:Cristino Castelo Branco, Simplício de Sousa Mendes e Lucídio Freitas, os dois últimos já falecidos. Foi muito curta a vida de Nogueira Tapety, tragado pela tuberculose que ceifou muitos talentos no Piauí, como Celso Pinheiro, Adail Coelho Maia, José Newton de Freitas e Lucídio Freitas. Poeta romântico por excelência, cujas características são encontradas, todas elas, na construção de seus versos (visão do mundo pessoal e íntimo, estado de alma pessoal diante da realidade exter ior, primado da imaginação, na intuição, da emoção e da paixão). No soneto “Pesadelo Atroz”,Nogueira Tapety oferece a medida exata do romantismo da sua poesia, inspirada no desregramento de sua vida boêmia e na tragédia amorosa que o levava em busca de paz à comunhão do bordel e do copo de bebida, onde só poderia encontrar desespero e desilusão:
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.. Mal sabe ela que todo esse desregramento
É o véu sob o qual minha tortura oculto,
Pois quem vive como eu de tormento em tormento,
Necessita viver de tumulto em tumulto...
O que eu busco ao bordel, é a paz do esquecimento,
Mas na noite do vício em as mágoas sepulto,
Como um raio a luzir, de momento a momento,
Fere-me o pensamento o clarão do seu vulto.
Foi o vício o recurso extremo, o último apelo,
Que lancei, torturado, aos rumores do mundo,
Para me libertar deste amargo desvelo.
E quanto mais me excedo e em rumores me afundo,
Mais se arraiga em minh’alma este atroz pesadelo,
Este afeto infeliz cada vez mais profundo.”

Iniciando sua vida literár ia com uma simples conferência, primeiro plantio de umas sementes que iriam dar bons frutos, Nogueira Tapety escreveu as seguintes obras em poesia, que ficaram para atestar seu grande talento: “Ode a Madeira”. “No exílio”, “Manhãs de Inverno”, “Sonho Panteísta” e “Às Armas”.

Colaborou nos jornais do Piauí, “Diár io de Pernambuco” e “Diário de Belém” – informa João Pinheiro no escorço “Literatura Piauiense” – e realizou, no Teatro 4 de Setembro (como já está dito na abertura deste trabalho), uma conferência literária, “A Luz”, deixando inéditos dois volumes de poesia a que deu título geral de“Versos” (em duas partes) e “Vingança de Mulher”, drama em quatro atos – adaptação ao palco da novela “Mariage de Vengeance”, de Le Sage.

Aceito membro da Academia Piauiense de Letras, não chegou a se empossar, por ter falecido, ficando de posse de sua Cadeira, a de número 15, o desembargador Cristino Castelo Branco, um dos maiores nomes da literatura piauiense, como poeta, como pesquisador e como conferencista.

Nogueira Tapety não deixou nenhum livro publicado – de um lado, pelas atividades publicitárias do Piauí, de outro pelo desleixo do homem de pensamento, que costuma se esquecer, na sua vida de sonhos, do lado real da vida. O poeta Veras de Holanda padeceu, também, dessa incúria e os seus versos, se não fossem cuidados pelas mãos dos outros, teriam caídos no mais cruel anonimato. O poeta Júlio Antônio Martins Vieira (biografado nesta obra), que anda por aí pisando o chão da cidade e beijando a boca úmida das taças de cristal, é outro que vai deixar para a posterioridade, apenas, o prurido de seu talento através da crônica verbal.

Em Oeiras, na companhia do poeta Balduíno Barbosa de Deus (“Desce a noite tristemente, / envolvendo, de repente, / a terra na escuridão... / E as estrelas,buliçosas, / vão brotando, como rosas, / nos canteiros da amplidão...”), visitei a casa, no bairro meditativo do Canela, a tarde quase morta e o Riacho do Mocha, muito perto, musicando nos seixos lodosos, uma canção sacra, casa onde morou e morreu Nogueira Tapety. Num canto de um quarto modesto onde fui levado pela mão obsequiosa de Balduíno, expirou o poeta, cuja maior lembrança ali é um retrato seu, desbotado e empoeirado. Nogueira Tapety, tinha muita sede de luz, como Goethe (“Luz! Mais luz”), talvez por viver, no cumprimento cruel de seu destino, sempre engolfado nas trevas:

“Todo o meu corpo é luz esplendorosa,
Sou hino de luz religiosa,
Gravitando na órbita dos Céus...
Milhões de auroras riem no meu canto,
Ondas de estrelas brilham no meu pranto,
Pélagos de luas há nos olhos meus!...
Esta carne, este sangue, esta miséria.
E este ideal imortal que me conduz,
Já foram brasas na amplidão etérea,
Por isso exultam, devorando a luz...”
J. Miguel de Matos

Antologia Poética Piauiense, 1974 – ed. Artenova – p. 72/74

quinta-feira, 25 de junho de 2009

NOGUEIRA TAPETY: SENHORA DA BONDADE

J Ribamar de Matos
Confessa Humberto de Campos, nas suas memórias inacabadas, ter sido um anônimo versejador de província o poeta de sua predileção, na adolescência. O fenômeno não chega a ser original; repete-se com cada um de nós, quando nos iniciamos na literatura. Foi assim comigo e terá sido assim com muitos outros jovens. Nos meus primeiros anos declamava com maior enlevo o “Senhora da Bondade”, de Nogueira Tapety, do que qualquer obra prima da poesia universal. Com a maturidade literária, poetas mais afamados vieram assumindo a liderança em minha admiração. Mas nunca feneceu, em mim, o respeito ao talento criador, às belas estrofes daquele vate que, não fora morte prematura, teria atingido o alto nível dos grandes parnasianos do Brasil, desgarrado para a poesia panteísta, (na observação de Édson Cunha, - vitorioso crítico de “Nossos Imortais” sendo ele também imortal, ocupante da cadeira de nº 5-). E tanto é assim, que alimento desejo de, um dia, escrever algo mais substancioso a respeito de quem a morte levou tão cedo, não permitindo que deixasse obra definitiva.

Quando estudante em Teresina, iniciei exaustivo trabalho de pesquisa sobreesse aedo esquecido. Cheguei mesmo a reunir valiosos subsídios e boa parte de sua produção poética esparsa – inclusive a expressiva ode a Zaratustra, precedida da corajosa epígrafe “Palavras que Nietzsche não escreveu”. Mãos inescrupulosas,porém, levaram-me, por empréstimo, o caderninho de anotações que nunca maisretornou as suas origens, inutilizando-se, dessa maneira, um esforço de vários meses no manuseio de papéis de outrora. A um só tempo as atividades profissionais afastaram-me das fontes de referência, impossibilitando-me de retomar o trabalho.

Benedito de Francisco Nogueira Tapety nasceu em Oeiras a 30 de dezembro de 1890. Teve o batismo no dia 8 de fevereiro de 1891. Seu registro civil, sob nº 369, se fez em 13 de junho de 1917. A 18 de janeiro do ano seguinte, faleceu naquela mesma cidade. Solteiro, vinte sete anos e dezenove dias de existência.

Seu túmulo é obra, do artista-curioso e inspirado, de saudosa memória, Burane Freitas. Consta de lápide básica, inclinada, no alto da qual se ergue uma cruz de pedra inteiriça, com esplendor no encontro dos braços. Nos braços está escrito “1890/1918”, e na parte vertical, ao longo: “B. Nogueira Tapety”. Na lápide: “Amou o Belo; o Bem e a Verdade”. Há também vários desenhos significativos – sol, coroa e flores – tanto na cruz como na lápide.

Estreou nas letras piauienses com a conferência “A Luz”, em 11 de fevereiro de 1911, no teatro 4 de Setembro, na qual estudou o sol perante a Ciência, a Religião e a Literatura. Formou-se em Ciência Jurídicas e Sociais pela tradicional Faculdade de Direito do Recife, no dito ano de 1911. Foi professor no velho Liceu Piauiense, Delegado Geral e Promotor Público em Teresina, e Membro da Academia Piauiense de Letras (Cadeira nº 15, de que é Patrono o laureado tribuno parlamentar Antônio Borges Leal Castelo Branco).
Faleceu, porém, antes de assumir a cadeira. Desde então ocupa-a o luminoso poeta e jurista Cristino Castelo Branco. Foi – Cristino – seu condiscípulo na Faculdade e ao mesmo tempo camarada de república estudantil, disse de NogueiraTapety. “Dos companheiros que tive, um dos mais inteligentes era, sem dúvida, o mulato de Oeiras”.

Deixou, o nosso vate, em manuscrito, três pequenos volumes, sendo dois
contendo versos (e com essa denominação) e o último encerrando a conferência atrás aludida.

Essas excelentes produções, a família Tapety, durante anos, esqueceu o
nome da pessoa a quem as havia emprestado. Teódulo Freitas Tapety, sobrinho do autor, conseguiu depois, casualmente, recuperá-las. Uma vez mais, porém, se extraviaram...

Não obstante, em Oeiras, ainda há quem conserve de cor, algumas poesias e sonetos do querido e ardoroso beletrista patrício. Assim, posso agora apresentar os dois seguintes, sendo, o segundo, uma de suas derradeiras produções.


SENHORA DA BONDADE
Não te quero por tua formosura
De rainha da graça entre as mulheres,
Quero-te porque és boa, porque és pura
E inda mais porque sei que tu me queres.
A beleza exterior nem sempre dura,
E a d’alma, estejas tu onde estiveres,
Ungirá de meiguice e de doçura
Tudo em que a bênção deste olhar puseres.
Eu sou artista: encanta-me a beleza,
Em ti, porém, abstraio-a inteiramente,
E penso amar-te assim com mais nobreza;
Pois, se te esqueço a forma e a mocidade,
É para amar em ti unicamente
A encarnação suprema da bondade.


HOLOCAUSTO
Eu devia prever que toda essa loucura
E esta dedicação com que te tenho amado,
Não podiam mover-te a impassível ternura
Pois nunca existiu bem com o bem recompensado.
Entretanto, bendigo a terrível tortura
E os suplícios cruciais por que tenho passado,
Pois sofrendo por ti, eu sinto que a amargura
Tem o doce sabor de um fruto sazonado.
Olha bem para mim: vê que vinte e seis anos
Não podiam me ter por tal forma abatido
Nem roubar minha força e vigor espartanos,
Se estou precocemente exausto e envelhecido,
É do efeito fatal dos tristes desenganos
E do atroz desespero em que tenho vivido.

Quem, ao escrever versos como esses foi compreendido e festejado por seus contemporâneos, merece, sem dúvida, a admiração e reconhecimento dos pósteros. Merece a ressurreição literária. E é na verdade, possuído dessa confiança que os estou relembrando. Faço com eles – assim emoldurados por esta singela crônica – um brinde de luz aos que ora se devotam à tarefa cívica do revigoramento cultural de minha Oeiras. Nesse empenho, procuraremos preencher a lacuna ocasionada pela demolição criminosa de valiosos tesouros materiais e morais, que vem sofrendo asanta terrinha – “terra máter” do Piauí -, sempre disposta ao aprimoramento cultural – democrático de todos os seus filhos, embora freqüentemente preterida na distribuição das honrarias. Os tesouros da inteligência e da alma, todavia, são imperecíveis, conquanto permaneçam, às vezes, em estado latente, por muito tempo.

Deve ter pensado nessa base o erudito intelectual conterrâneo e acadêmico (cadeira nº 12) Bugyja Britto, quando – segundo acabo de ser informado – perguntou em carta a Costa Machado, referindo-se à recente criação do Instituto Histórico de Oeiras: “Por que não se cria uma Academia de Letras?”.
J. Ribamar Matos .Fortaleza, 03/03/1972


Este artigo foi publicado no jornal oeirense O COMETA (abril/72). O autor,
também festejado poeta, nascido em Oeiras, faleceu, como Nogueira Tapety, muito moço, sem ver publicada sua obra, vinda a lume, posteriormente, sob o título “Poeira de Estrada”, edição do Instituto Histórico de Oeiras, patrocinada pelo Banco do Nordeste, de onde o vate era funcionário
.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

À MEMÓRIA DE NOGUEIRA TAPETY


Nem mais uma ilusão resta-me à vida,
Depois que as esperanças me largaram
No silêncio feral da treva imensa.


Aves do meu sertão, chorai por ele,
Na selva verde-escuro-azul do Mocha,
No descampado azul da Pátria amada.


Que minha noiva nessa vida é a morte,
Noiva e mortal dos lânguidos mortais,
Sabem por toda essa avenida
Triste,da vida triste,
Benevenuto Celino e Edgar Poe.


Desde Canela, à margem azul do Mocha,
Ó pássaros daí, chorai por mim,
Já que não perto estou dos vossos ninhos,
Para juntar meu canto aos vossos cantos,
No sensível calor dos vossos lares,
Da vossa vida lírica sertânica,
Para choro sentir nas vossas almas,
Tão cândidas, tão puras, tão divinas.


O segredo da Terra está no Sol!
O segredo da vida está na morte!
O segredo da morte está na treva.
E as divinas virtudes param longe,
Entre as luzes de Gorki e Tolstoi.


Ó sigilo terrível da natureza!
Ó dúvida que tanto me entristece!


Cuidei que escura noite não viesse,
Tão trágica bater na minha porta,
Na minha pobre porta de boêmio,
Para fazer o pranto, o desconsolo,
E esse rio de lágrimas.


Mal chega a vida, a morte nos alcança!
Ah! Para todo o ser que vem à vida
Uma cruz o destino põe na estrada
Da eterna noite do silêncio eterno.


Homem: no triste rumo dessa sorte
Ouvi meu canto, reparai meu verso!
Nem mais uma ilusão resta-me a vida,
Depois que as esperanças me largaram
No silêncio feral da treva imensa.


Ai! Patativas de azuladas penas,
Cantai sentidas nênias nesses bosques
N’altas verdosas frondes da ingarana,
Em memória do jovem literato,
Do famoso poeta,
Que escreveu “Janua Coeli”.
Benedito A. de Freitas (Baurélio Mangabeira)

NOGUEIRA TAPETY(1890 – 1918)










"Consciente, visceralmente, de que tinha pouco tempo para realizar-se, o poeta explodiu em versos como um vulcão; borbulhou em cascata, como a semente de planta no deserto, que espera cinco ou mais anos por uma única chuva."
Celso Pinheiro Filho


Benedito Francisco Nogueira Tapety pertence ao grupo, não tão pequeno, de jovens poetas que pagaram tributo ao chamado “mal do século”, ou seja, a tuberculose e a poes ia romântica. Como tal escola estética se prolongou por muitos anos, de cambulhada com o Parnasianismo e o Simbolismo, muitos poetas de alvorecer do século XX foram contaminados pelo tal mal.


Nogueira Tapety, que nasceu em Oeiras no dia 30 de dezembro de1890, teve a sorte, embora tardia, de encontrar dedicados admiradores, emseu tempo e depois, e que tiraram do ineditismo em livro as suas melhores poesias. Arte eTormento, edição de 1990, reúne a maior parte de seusescritos poéticos, um pouco de prosa e trechos de seu diário, quando opoeta estava em tratamento na ilha da Madeira.


Homenagem ao primeiro centenário de Nogueira Tapety, o livro foi editado pelo Instituto Histórico de Oeiras e Academia Piauiense de Letras, e é o bastante para o conhecimento, de fato, de um poeta notável, alinhado no que os críticos chamam de Romantismo tardio, pois o próprio Castro Alves, morto em 1871, já representava a fase final da escola. A curiosidade, em relação aos poetas dessa fase, fase de transição, atropelo do novo século, escolas estéticas surgindo, é que adotaram o Romantismo como sentimento e o Parnasianismo como forma.


Paradoxal em principio tal posição, os poetas brasileiros do começo do século praticavam, por exemplo, a camisa-de-força do soneto parnasiano
com o sentimento libertário e lírico dos românticos. E a essa regra não fugiu Nogueira Tapety e seus contemporâneos poetas, no Piauí, no Maranhão, no Rio de Janeiro, na província pequena e na província grande.
Escapavam do epigonismo pelo desvão do seu talento e de sua marca pessoal de linguagem poética.


A atividade leiga de Nogueira Tapety, ou seja, fora da poesia, foi estudar na terra natal e se formar em Direito no Recife. E em breve está como promotor público (1912) em sua cidade. Disse Celso Pinheiro Filho: “Foi a oportunidade de Tapety reencontrar-se com os doutores e os poetas simplesmente boêmios de sua geração, que faziam serenatas até o alvorecer”. E por via das serenatas e as mesas dos bares que quase toda
uma geração foi sacrificada.


Homem que adquirira grande cultura, embora bem jovem, Nogueira Tapety ainda lecionou filosofia, psicologia e lógica, até surgirem, em 1915, os primeiros sintomas da doença. Retira-se para a ilha da Madeira, onde sente melhora, mas acaba voltando para morrer na terra de sua infância, a fazenda Canela.


Para se ter idéia dos preconceitos votados à tuberculose à época, citemos A. Tito Filho, um dos apresentadores da obra Arte eTormento: “Ao falecer, em 1918, a casa em que morava foi purificada pelo fogo: a rede, as roupas, os calçados, os papéis, tudo queimado”. Nogueira Tapety foi o
primeiro ocupante, postumamente, da cadeira 15 da Academia Piauiense de Letras.
Assis Brasil